quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Kanzakura, a Cerejeira Sagrada

Kanzakura, a Cerejeira Sagrada

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Em Mimasaka no Kuni (país de Mimasaka), hoje província de Okayama, havia uma pequena aldeia de nome Kagami, onde até hoje existe um solo sagrado com um templo centenário shintô dedicado à divindade Musubi no Kami, deus do amor e da união.

Nesse solo sagrado ao redor do templo havia uma velha e magnífica cerejeira chamada Kanzakura, ou cerejeira sagrada. Próximo dela foi construído o templo dedicado ao deus do amor.

Na pequena vila de Kagami morava um homem muito rico chamado Sodayu. Ele era viúvo e tinha uma encantadora filha, de 17 anos, chamada Hanano. Um dia, Sodayu achou que a filha estava na idade de contrair matrimônio.

- Minha menina - disse o pai - devemos proceder como manda a tradição. O tempo passou e minha criança já está na idade de encontrar um marido. Minha obrigação é arranjar um bom noivo para você.

Hanano contou a novidade à governanta Yuka, pedindo que ela encontrasse alguém para gostar. Yuka respondeu que era difícil encontrar uma pessoa que a merecesse, porém sugeriu que sua jovem patroa fosse rezar no templo de Musubi no Kami.

- Para isso, terá que orar 21 dias seguidos no terreno sagrado.

Hanano gostou da sugestão e, nesse mesmo dia, partiu em companhia de Yuka em direção do santuário. Dia após dia ela orou, até que chegou o 21º dia. Terminadas as orações, elas voltavam passando sob a grande cerejeira sagrada, que estava em plena floração. Viram que perto do tronco havia um jovem, com cerca de 21anos. Era um belo rapaz com olhos expressivos e tinha na mão um galho de cerejeira carregada de flores. Para surpresa das duas, ele deu um agradável sorriso para Hanano e veio ao encontro dela. Gentilmente, entregou as flores para Hanano, curvando em reverência, e afastou-se em seguida.

Hanano vibrou de emoção. Ficou muito feliz, pois sentiu que o deus do amor e da união havia mandado aquele belo jovem em resposta às suas preces.

- Yuka, eu estou muito feliz. Como você disse, o deus Musubi me enviou esse lindo rapaz. Valeu a pena ficar orando durante 21 dias.

Na cidade vizinha, havia um samurai de nome Tokunosuke que, ao ficar sabendo que Sodayu procurava um noivo para a filha, resolveu ir pessoalmente se apresentar como pretendente.No dia seguinte, o moço foi visitar o pai de Hanano. A certa altura da conversa, Hanano foi chamada para servir chá ao visitante. Depois que ele foi embora, o pai disse que aquele é o rapaz que ele escolheu para ser seu esposo.

- Ele é de uma família rica. Seu pai é meu amigo. E o rapaz diz que já faz um tempo que está apaixonado por você.

Hanano nada disse, pediu licença a seu pai e retirou-se para seu quarto de cabeça baixa. Sodayu comentou com Yuka:

- Encontrei um ótimo pretendente para minha filha, mas ela em vez de mostra-se feliz, saiu às pressas para o quarto. Você pode explicar-me a razão? Você deve saber seus segredos.

Yuka a princípio vacilou em responder, mas achou que para o bem da menina devia contar toda a verdade. Assim, relatou o encontro da Hanano com o jovem desconhecido.

Na manhã seguinte, Tokunosuke veio a casa de Sodayu e ouviu de Hanano que não poderia casar-se com ele, pois amava um rapaz desconhecido.

O jovem que amava Hanano ficou desesperado. E revolveu segui-la para saber quem era seu rival.

Na tarde desse mesmo dia, Hanano e Yuka foram ao templo. Mais uma vez o jovem estava sob a cerejeira florida e, vendo a garota, se aproximou com um ramo florido e a ofereceu sem dizer uma palavra.

Tokunosuke, que estava escondido atrás de um torô (lanterna de pedra), assistiu a tudo com o coração apertado.

Quando Hanano e Yuka foram embora, Tokunosuke saiu de seu esconderijo e abordou o jovem em tom rude.

- Quem é você, seu conquistador barato? Dê seu nome e endereço, quero saber se é digno ao amor da bela Hanano.

O jovem nada respondeu, limitou-se a fitá-lo com seu olhar penetrante. Isso deixou Tokunosuke mais irritado. O samurai sacou de sua espada e atacou com um violento golpe em direção do jovem. Agarrando um galho pendente numa esquiva rápida, o jovem misturou-se às fartas flores de cerejeiras. Nesse momento, uma chuva de pétalas caiu sobre o samurai, cegando-o momentaneamente.

Quando a chuva de pétalas acalmou, Tokunosuke pôde perceber que o jovem havia desaparecido e sua espada estava clavada no tronco da cerejeira. Nisso, um dos sacerdotes do templo veio correndo e gritando:

- Seu malfeitor desalmado! Feriste o tronco da cerejeira sagrada. Por que tanta violência?

Tokunosuke pediu desculpas de joelho e contou ao religioso o que tinha acontecido. E o sacerdote explicou:

- Esta árvore é sagrada porque tem um espírito sagrado. Às vezes, o espírito da árvore se manifesta sob forma de um jovem diante do tronco. É a esse espírito que você tentou ferir com sua espada.

Tokunosuke deixou o solo sagrado e foi direto para casa de Sodayu. E contou a ele tudo o que tinha visto e ouvido.

- Talvez agora sua filha aceite casar-se comigo, pois não pode se casar com um espírito sagrado, não é mesmo?

Hanano foi chamada para saber do acontecido. O resultado foi o mais inesperado possível.

- Não sei o que dizer. Cometi uma blasfêmia, fui me apaixonar por um deus da natureza - gritava completamente fora de si. - Tenho que orar bastante no templo para ser perdoada.

Assim, Hanano, mais uma vez, recusou-se a casar com Tokunosuke e resolveu se internar em um templo e se dedicar à vida religiosa. Com o consentimento de seu pai, foi viver num templo, raspando a cabeça e vestindo um hábito branco. Hanano passou a viver sua nova vida varrendo o chão do jardim, cuidando das plantas e fazendo muitas orações. Dizem que quando ela morreu, foi enterrada no solo sagrado e, de seu túmulo, nasceu uma nova cerejeira. Hoje, essa cerejeira floresce todos os anos ao lado da cerejeira grande sagrada.


Fonte: http://www.nippobrasil.com.br

A Origem da Estrela-do-Mar

A origem da estrela-do-mar


Uma antiga lenda da província de Okinawa conta que, certa ocasião, o deus Estrela Polar e a deusa Cruzeiro do Sul resolveram trazer vida para a terra. Então, quando a deusa Cruzeiro do Sul estava pronta para dar à luz, ela perguntou ao deus Poderoso do Céu onde poderia ter seus bebês.

O deus Poderoso do Céu olhou para a terra e avistou uma pequena ilha chamada Taketomi-jima, onde existia, ao sul, um belo mar de coral. Então, ele disse à deusa Cruzeiro do Sul: – Vá ao lado sul de Taketomi-jima, pois lá existe uma praia com águas mornas e ondas mansas, isso será muito bom para seus bebês.

Assim, a deusa Cruzeiro do Sul desceu da Alta Planície Celeste e dirigiu-se à ilha, conforme sugerira o deus Poderoso do Céu. Lá chegando, deu à luz a várias estrelinhas cintilantes. A deusa estava muito feliz, pois realmente aquela praia tinha a água morna e uma temperatura perfeita para que suas filhas pudessem passar os primeiros anos de suas vidas.

– Assim que crescerem, elas subirão a Alta Planície Celeste para se encontrar comigo e viveremos cintilantes no céu. Disse a deusa retornando ao seu lugar.

Entretanto, o deus Sete Dragões do Mar ficou irritado, porque a deusa Cruzeiro do Sul não lhe pediu permissão e usou a praia para parir seus filhos. Ele então chamou uma das suas serviçais, a dona Serpente Gigante, e ordenou:

– Não admito que ninguém dê à luz em meu oceano sem minha permissão. Vá e devore todos os bebês que encontrar na região sul da ilha.

A dona Serpente Gigante, obediente à ordem de seu amo, engoliu todos os bebês da deusa Cruzeiro do Sul com sua enorme bocarra, matando-os todos. Em seguida, cuspiu seus corpos.

As estrelinhas mortas flutuaram no mar até alcançarem uma praia chamada Higashi Misaki, no lado leste da ilha Taketomi. As estrelinhas, empurradas pelas ondas, pararam na praia e ficaram com o corpo salpicado de areia. Nessa localidade, havia um santuário onde vivia a semideusa Amável. Quando encontrou as estrelinhas sem vida, Amável sentiu muita pena delas e levou-as para o santuário.

- Oh! Pobres estrelinhas, vou colocá-las no incensório. Assim, quando os aldeões vierem me trazer oferendas durante o festival e queimarem os incensos, suas almas poderão subir ao céu junto à fumaça. Lá, na Alta Planície Celeste, poderão reencontrar sua mãe.

Conforme a semideusa Amável planejou, quando chegou o dia do festival, os aldeões queimaram muitos incensos e as almas dos bebês-estrelas subiram ao céu levadas pelas fumaças.

Esta é a origem lendária da estrela-do-mar. Em Taketomi-jima, apesar de séculos terem se passado, ainda hoje é possível encontrar estrelas-do-mar com corpos salpicados de areia nas belas praias que ficam ao sul da ilha de Okinawa. Elas são conhecidas como Hoshi-suna (estrelas de areias), nome que nasceu em referência a esta lenda

Os Ratos Sumotoris!


Os ratos sumotoris!

Texto e desenhos: Claudio Seto

Há muitos e muitos anos, no Japão, vivia um casal de velhinhos no sopé de uma montanha. Por serem pobres, raramente os velhinhos iam até a cidade fazer compras ou tomar banho em onsen (termas de água quente). O velhinho tinha uma pequena horta e cultivava verduras para o consumo do casal, e a velhinha cuidava dos afazeres domésticos.
Um dia, quando o velhinho se embrenhou na mata para apanhar lenhas, ouviu um ruído diferente entre as árvores. Espiou em silêncio detrás de uma árvore e viu dois ratos lutando sumô.
Foram várias rodadas, e o rato maior jogava sempre o rato menor para fora do ringue circular. Observando atentamente o rato menor, o velhinho reconheceu que era o ratinho que vivia em sua casa.
Assim que voltou para sua morada, o velhinho contou o que tinha assistido.
– Então são ratos sumotori (lutadores de sumô)? – perguntou a velhinha.
– Não, o rato grande e forte parece ser um choja nezumi (rato milionário), e o fracote é o rato que vive em nossa casa – respondeu o velhinho.
– Sinto-me culpada. O ratinho comendo migalhas de uma casa de pobre só pode ser fraco mesmo – observou a velhinha.
– Então vamos socar o que nos resta do arroz glutinoso (motigome) e fazer moti (bolinho de arroz) para ele ficar forte!
– Boa idéia!
Assim, lavaram o arroz glutinoso no primeiro dia do ano novo, cozinharam-no e colocaram-no para pilar. O velhinho batia com um pilão em forma de enorme martelo, enquanto a velhinha virava habilmente a massa de arroz socado para não grudar na cova do almofariz. Depois que a massa ficou bastante glutinosa, a velhinha foi tirando pedaços e girando na palma da mão. Fez vários bolinhos e os colocou numa bandeja comprida de madeira.
– Ratinho de casa, coma bastante moti e adquira força para derrotar o rato grandão – dizendo isso, o velhinho colocou a bandeja no cantinho da casa, perto de um buraco na parede.
Foi um verdadeiro banquete para o ratinho, que comeu a noite inteira e só parou para descansar para a luta.
Durante o dia, no meio da mata, as lutas desenrolaram-se da seguinte maneira:
No primeiro round, o rato grande empurrou o pequeno para fora do ringue circular.
No segundo, o rato pequeno jogou o grande para fora do ringue.
No terceiro round, o rato grande levantou o pequeno e o arremessou para fora do círculo.
No quarto round, o rato pequeno empurrou o grandão para fora do ringue. Assistindo à luta escondido, o velhinho sorriu satisfeito.
Com o empate no sumô, o rato milionário perguntou ao rato pequeno:
– Como foi que você adquiriu tanta força de um dia para outro?
– Ah, eu comi bastante moti, feitos carinhosamente por meu mestre e sua esposa – respondeu o pequeno.
– Eu gostaria de comer esses bolinhos de arroz na sua casa.
– Meu mestre é muito pobre, mas, se você trouxer dinheiro para ele comprar o arroz, acho que ele vai fazer para você também.
Quando o velho chegou em casa, a velha perguntou:
– Como foi a luta de sumô hoje?
– Ah, foi ótima, o nosso ratinho está tão forte quanto o grandão.
– Fico feliz! Foi bom ajudá-lo fazendo bolinhos de arroz.
– Bem, ouvi o ratão dizendo que gostaria de provar nosso moti.
– Só sobrou um pouquinho de arroz para comermos nesse ano novo, pois o que socamos ontem nós demos para o ratinho.
– Podemos ficar sem; vamos socar para os ratos.
Nessa noite, o rato grande veio visitar o rato pequeno trazendo um saco grande nas costas.
– Esses bolinhos de arroz glutinosos foram feitos pelo meu mestre e sua amável esposa. Por favor, sirva-se.
– Oh! Realmente são deliciosos. Eu nunca comi bolinhos tão gostosos. Dizem os japoneses que bolinhos feitos com carinho dão muita sorte para quem os come.
Os dois ratinhos comeram e comeram até ficarem com a barriga estufada, como os lutadores de sumô. A velhinha bondosa costurou uma tanga vermelha para cada um usar na luta.
Na manhã seguinte, quando o casal acordou, encontrou um saco cheio de dinheiro no armário. Os velhinhos tiveram um início de ano muito feliz fazendo compras na cidade e tomando banho diariamente nas termas de água quente.