segunda-feira, 3 de março de 2008

A Sacola Furada Parte I

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Há muitos anos, em uma região montanhosa do Japão, vivia uma mãe com duas filhas moças. Comentários da vizinhança davam conta de que a mais velha era bondosa e querida por todos da aldeia, enquanto a mais nova era egoísta, gananciosa e muito antipática. Apesar disso, por ser a caçula, a mãe tratava melhor a mais nova, empurrando para a mais velha todos os serviços sujos e pesados da casa.

Certa ocasião, a mãe mandou que as duas fossem à floresta catar kuri (castanha). E ordenou que só voltassem quando estivessem com embornal cheio de castanhas. Assim, entregou para cada uma delas um embornal do mesmo tamanho. Acontece que a sacola da mais jovem era nova e a da mais velha, muito usada e cheia de furos.As duas andaram bastante na mata, até que encontraram um velho castanheiro esparramando sementes pelo chão. Então, começaram catar as sementes para encher logo o bornal. Apesar de a mais velha se empenhar no trabalho, à medida que colocava as castanhas por cima, elas iam vazando pelos furos e nunca ficava cheio por completo. Já a mais nova conseguiu encher com facilidade seu novo embornal.

Assim, a mais nova foi embora, enquanto a mais velha continuou catando para completar seu trabalho. Enquanto repetia o gesto de catar e ao mesmo tempo tapar os buracos com as mãos, o sol se foi e a noite chegou. Sentindo medo, resolveu voltar para casa, mas a escuridão a impedia de enxergar o caminho de volta. Andou durante algumas horas sem rumo, com temor de lobos, até que chegou a um pequeno santuário abandonado.

Quase na frente do pequeno templo havia um Jizô – estátua de pedra representando um anjo budista, protetor dos pobres e dos honestos. A moça aproximou-se da estátua e, juntando as mãos em gesto de oração, pediu ao anjo que permitisse passar a noite no santuário.

E a estátua de pedra respondeu:

– Pobre menina, se você quiser pode passar a noite aqui, porém existe um grande problema. Este local abandonado se tornou ponto de reunião dos oni, esses demônios de chifre vêm todas as noites nesta clareira para beber saquê e fazer uma grande barulheira.

– Deve ser muito perigoso, mas o que vou fazer? Não posso voltar para casa com o embornal de castanhas incompleto e corro o risco de ser devorada pelos lobos no caminho. Se eu ficar, esses demônios podem me ver e estarei perdida do mesmo modo. Que dilema. Salve-me, Jizô-san, por favor – disse a moça com lágrimas nos olhos.

– Você terá que ser corajosa. Descansará escondida atrás de mim, com aquele chapéu de palha que está pendurado no santuário. Quando os oni chegarem e estiverem fazendo festa, você deverá imitar o canto do galo batendo o chapéu de palha, para simular o bater das asas. Assim, eles irão embora pensando que vai amanhecer. E depois você poderá dormir sossegada.

A moça pegou o chapéu e sentou-se encostada atrás do Jizô, e ficou descansando. No meio da noite, conforme tinha dito o anjo budista, os demônios começaram a vir de todos os lados, cada um com um garrafão de saquê. Pouco depois, eles bebiam, cantavam e faziam jogatina... Soltavam gazes e palavrões para todos os lados. A garota estava dura de medo e rezava baixinho para não ser descoberta.

Quando a festa estava de bom tamanho, ela criou coragem e começou a imitar o canto do galo, batendo o chapéu de palha como farfalhar de asas. Os oni levaram um susto com o canto do galo.

– O galo está cantando, vai amanhecer. Vamos depressa para nossas cavernas, Amaterasu Oomikami, a Augusta Deusa Sol, vem aí.

Foi uma confusão geral. Os demônios saíram correndo para todos os lados e desapareceram dentro da mata. Assim, a moça pôde dormir sossegada no pequeno santuário.

Quando o dia chegou, diante do Jizô, a garota juntou as palmas das mãos em agradecimento e se despediu do anjo budista.

- Se você quer demonstrar gratidão, não pode ir embora deixando toda essa sujeira que os demônios fizeram na clareira do santuário. Coloque tudo no seu embornal e leve para bem longe daqui.

Na clareira, havia garrafas de saquê cheias e vazias, papéis, e muitas moedas de ouro usadas na jogatina pelos oni. A garota esvaziou seu embornal de castanhas, forrou o fundo furado com papéis e garrafas e repôs as castanhas junto com as moedas de ouro. Assim, voltou para casa feliz, pois a sacola, agora sim, estava cheia.

A Sacola Furada - Final

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)


Quando a garota chegou em casa, levou uma bronca da mãe, porque demorou muito para voltar. Mas, quando viu as moedas de ouro, os olhos da mãe saltaram de tanta ganância. Logo, ela tratou de guardar para si as moedas. Já a irmã mais nova ficou morrendo de ciúmes, pois era ela quem gostaria de ter conseguido aquelas moedas.

Gananciosa, a mãe decidiu que as filhas deveriam voltar à floresta para pegar mais castanhas. Porém, desta vez, trocou as sacolas. Deu a sacola nova para a filha mais velha e a sacola velha para a filha mais nova. Ela queria que sua filha favorita trouxesse moedas de ouro também.

Na montanha, a história repetiu-se de modo inverso. A irmã mais velha com a sacola mais nova encheu-a primeiro de castanhas. E resolveu ajudar a mais nova.

– Não preciso de sua ajuda. Se já encheu seu embornal, vá para casa. Eu logo chego lá.

– Vou esperar por você. É perigoso ficar sozinha no meio da mata.

– É melhor você ir embora. A mamãe vai ficar brava se souber que você encheu a sacola e ficou folgadamente parada. Ela lhe espera para preparar o nosso jantar.

Assim, a mais velha voltou para casa a contragosto, pois temia que sua irmã fosse farejada pelos lobos.

Vendo a irmã mais velha ir embora, a outra se apressou em procurar o santuário abandonado do Jizô descrito pela primeira. E não tardou muito a encontrar a estátua do anjo budista.

– Jizô-san, posso passar a noite nesse santuário? – perguntou a menina para a estátua.

– Ninguém pode lhe impedir de passar a noite aqui. Porém, devo adverti-la de que é perigoso, pois à noite, vários oni vêm aqui beber e fazer jogatina. Se descobrirem, você será, com certeza, mais uma vítima desses demônios desalmados. Portanto, é melhor ir embora enquanto está claro.

– Mas, Jizô-san, eu não sou medrosa.

Assim, a menina continuou insistindo tanto, que o Jizô concordou e deu a ela a mesma instrução dada à irmã dela na noite anterior. Então, ela se escondeu atrás do Jizo com um chapéu de palha na mão e ficou à espera dos oni.

No meio da noite, mais uma vez, os demônios chegaram na clareira. Mal começou a jogatina, a menina viu o brilho das moedas de ouro e, impulsionada pela ganância, não resistiu e saiu de seu esconderijo. Começou a bater o chapéu de palha e a cantar como um galo. Os demônios levaram um grande susto com aquela inesperada barulheira. Porém, logo raciocinaram que havia algo de estranho:

– Impossível que já esteja amanhecendo! nem chegamos a esvaziar uma garrafa de saquê!

– Alguma coisa está errada. Estão querendo nos enganar!

– Procurem e descubram quem é o engraçadinho!

Não demorou muito para os oni descobrirem a garota, que, tremendo de medo, voltou para trás da estatua do Jizô.

– Ah, então foi essa que nos enganou na noite de ontem e pegou nossas moedas de ouro. Vamos dar uma surra de chicotadas nela.

A garota correu, pedindo clemência, e os demônios correram atrás dela, dando-lhe varadas e chicotadas a noite toda, até ela chegar em casa exausta e castigada. Vendo a filha mais nova apanhando dos demônios, a mãe interveio, dizendo que quem trouxe as moedas foi a irmã mais velha.

– Velha mentirosa, merece apanhar também.

– Sim, vão apanhar até nos devolverem as moedas de ouro!

Assim, depois de levar uma surra, a mãe devolveu as moedas.

Bem que a irmã mais velha confessou ser ela quem tinha trazido as moedas, porém os demônios não acreditaram.

Na hora de ir embora, os demônios deram as moedas para a irmã mais velha, dizendo:

– Você é uma boa filha. Tentou proteger a mãe, dizendo-se culpada por trazer nossas moedas. Como prêmio, vamos presentear você.

– Mas, “senhores oni”, fui eu que apanhei as moedas de vocês.

– Não precisa dizer mais nada. Nós não somos idiotas. Agora, as moedas são suas e, se alguém tentar tirá-las de você, voltaremos para cortar as mãos dessa pessoa!

Assim dizendo, os demônios voltaram para a floresta.

Fonte: http://www.nippobrasil.com.br/

Comentário
O oni é uma criatura mítica que aparece em inúmeros contos e lendas do Japão. Geralmente, simboliza o mal, sendo um personagem monstruoso e temido, porém pronto para ser derrotado pelos famosos heróis lendários, como: Momotaro, Kintoki, Watanabe-no-Tsuna e Minamoto-no-Yorimitsu, entre outros.

O oni tem um rude aspecto humano, com cabeça grande, um ou dois chifres e, geralmente, pele vermelha. Geralmente, porque existe uma lenda que fala de um oni de pele azul. Embora tendo chifre e pele avermelhada, traduzir a palavra oni como “diabo” é um grande equívoco. O oni é uma espécie de demônio que mais se aproxima do ogro europeu que do diabo cristão.

Em muitas lendas japonesas, os oni reúnem-se em clareiras nas florestas para fazer jogatina, beber e cantar, como nas lendas já publicadas no Zashi: Kobutori Jiji, Issunboshi e Kozenji no Sotaro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Kanzakura, a Cerejeira Sagrada

Kanzakura, a Cerejeira Sagrada

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Em Mimasaka no Kuni (país de Mimasaka), hoje província de Okayama, havia uma pequena aldeia de nome Kagami, onde até hoje existe um solo sagrado com um templo centenário shintô dedicado à divindade Musubi no Kami, deus do amor e da união.

Nesse solo sagrado ao redor do templo havia uma velha e magnífica cerejeira chamada Kanzakura, ou cerejeira sagrada. Próximo dela foi construído o templo dedicado ao deus do amor.

Na pequena vila de Kagami morava um homem muito rico chamado Sodayu. Ele era viúvo e tinha uma encantadora filha, de 17 anos, chamada Hanano. Um dia, Sodayu achou que a filha estava na idade de contrair matrimônio.

- Minha menina - disse o pai - devemos proceder como manda a tradição. O tempo passou e minha criança já está na idade de encontrar um marido. Minha obrigação é arranjar um bom noivo para você.

Hanano contou a novidade à governanta Yuka, pedindo que ela encontrasse alguém para gostar. Yuka respondeu que era difícil encontrar uma pessoa que a merecesse, porém sugeriu que sua jovem patroa fosse rezar no templo de Musubi no Kami.

- Para isso, terá que orar 21 dias seguidos no terreno sagrado.

Hanano gostou da sugestão e, nesse mesmo dia, partiu em companhia de Yuka em direção do santuário. Dia após dia ela orou, até que chegou o 21º dia. Terminadas as orações, elas voltavam passando sob a grande cerejeira sagrada, que estava em plena floração. Viram que perto do tronco havia um jovem, com cerca de 21anos. Era um belo rapaz com olhos expressivos e tinha na mão um galho de cerejeira carregada de flores. Para surpresa das duas, ele deu um agradável sorriso para Hanano e veio ao encontro dela. Gentilmente, entregou as flores para Hanano, curvando em reverência, e afastou-se em seguida.

Hanano vibrou de emoção. Ficou muito feliz, pois sentiu que o deus do amor e da união havia mandado aquele belo jovem em resposta às suas preces.

- Yuka, eu estou muito feliz. Como você disse, o deus Musubi me enviou esse lindo rapaz. Valeu a pena ficar orando durante 21 dias.

Na cidade vizinha, havia um samurai de nome Tokunosuke que, ao ficar sabendo que Sodayu procurava um noivo para a filha, resolveu ir pessoalmente se apresentar como pretendente.No dia seguinte, o moço foi visitar o pai de Hanano. A certa altura da conversa, Hanano foi chamada para servir chá ao visitante. Depois que ele foi embora, o pai disse que aquele é o rapaz que ele escolheu para ser seu esposo.

- Ele é de uma família rica. Seu pai é meu amigo. E o rapaz diz que já faz um tempo que está apaixonado por você.

Hanano nada disse, pediu licença a seu pai e retirou-se para seu quarto de cabeça baixa. Sodayu comentou com Yuka:

- Encontrei um ótimo pretendente para minha filha, mas ela em vez de mostra-se feliz, saiu às pressas para o quarto. Você pode explicar-me a razão? Você deve saber seus segredos.

Yuka a princípio vacilou em responder, mas achou que para o bem da menina devia contar toda a verdade. Assim, relatou o encontro da Hanano com o jovem desconhecido.

Na manhã seguinte, Tokunosuke veio a casa de Sodayu e ouviu de Hanano que não poderia casar-se com ele, pois amava um rapaz desconhecido.

O jovem que amava Hanano ficou desesperado. E revolveu segui-la para saber quem era seu rival.

Na tarde desse mesmo dia, Hanano e Yuka foram ao templo. Mais uma vez o jovem estava sob a cerejeira florida e, vendo a garota, se aproximou com um ramo florido e a ofereceu sem dizer uma palavra.

Tokunosuke, que estava escondido atrás de um torô (lanterna de pedra), assistiu a tudo com o coração apertado.

Quando Hanano e Yuka foram embora, Tokunosuke saiu de seu esconderijo e abordou o jovem em tom rude.

- Quem é você, seu conquistador barato? Dê seu nome e endereço, quero saber se é digno ao amor da bela Hanano.

O jovem nada respondeu, limitou-se a fitá-lo com seu olhar penetrante. Isso deixou Tokunosuke mais irritado. O samurai sacou de sua espada e atacou com um violento golpe em direção do jovem. Agarrando um galho pendente numa esquiva rápida, o jovem misturou-se às fartas flores de cerejeiras. Nesse momento, uma chuva de pétalas caiu sobre o samurai, cegando-o momentaneamente.

Quando a chuva de pétalas acalmou, Tokunosuke pôde perceber que o jovem havia desaparecido e sua espada estava clavada no tronco da cerejeira. Nisso, um dos sacerdotes do templo veio correndo e gritando:

- Seu malfeitor desalmado! Feriste o tronco da cerejeira sagrada. Por que tanta violência?

Tokunosuke pediu desculpas de joelho e contou ao religioso o que tinha acontecido. E o sacerdote explicou:

- Esta árvore é sagrada porque tem um espírito sagrado. Às vezes, o espírito da árvore se manifesta sob forma de um jovem diante do tronco. É a esse espírito que você tentou ferir com sua espada.

Tokunosuke deixou o solo sagrado e foi direto para casa de Sodayu. E contou a ele tudo o que tinha visto e ouvido.

- Talvez agora sua filha aceite casar-se comigo, pois não pode se casar com um espírito sagrado, não é mesmo?

Hanano foi chamada para saber do acontecido. O resultado foi o mais inesperado possível.

- Não sei o que dizer. Cometi uma blasfêmia, fui me apaixonar por um deus da natureza - gritava completamente fora de si. - Tenho que orar bastante no templo para ser perdoada.

Assim, Hanano, mais uma vez, recusou-se a casar com Tokunosuke e resolveu se internar em um templo e se dedicar à vida religiosa. Com o consentimento de seu pai, foi viver num templo, raspando a cabeça e vestindo um hábito branco. Hanano passou a viver sua nova vida varrendo o chão do jardim, cuidando das plantas e fazendo muitas orações. Dizem que quando ela morreu, foi enterrada no solo sagrado e, de seu túmulo, nasceu uma nova cerejeira. Hoje, essa cerejeira floresce todos os anos ao lado da cerejeira grande sagrada.


Fonte: http://www.nippobrasil.com.br

A Origem da Estrela-do-Mar

A origem da estrela-do-mar


Uma antiga lenda da província de Okinawa conta que, certa ocasião, o deus Estrela Polar e a deusa Cruzeiro do Sul resolveram trazer vida para a terra. Então, quando a deusa Cruzeiro do Sul estava pronta para dar à luz, ela perguntou ao deus Poderoso do Céu onde poderia ter seus bebês.

O deus Poderoso do Céu olhou para a terra e avistou uma pequena ilha chamada Taketomi-jima, onde existia, ao sul, um belo mar de coral. Então, ele disse à deusa Cruzeiro do Sul: – Vá ao lado sul de Taketomi-jima, pois lá existe uma praia com águas mornas e ondas mansas, isso será muito bom para seus bebês.

Assim, a deusa Cruzeiro do Sul desceu da Alta Planície Celeste e dirigiu-se à ilha, conforme sugerira o deus Poderoso do Céu. Lá chegando, deu à luz a várias estrelinhas cintilantes. A deusa estava muito feliz, pois realmente aquela praia tinha a água morna e uma temperatura perfeita para que suas filhas pudessem passar os primeiros anos de suas vidas.

– Assim que crescerem, elas subirão a Alta Planície Celeste para se encontrar comigo e viveremos cintilantes no céu. Disse a deusa retornando ao seu lugar.

Entretanto, o deus Sete Dragões do Mar ficou irritado, porque a deusa Cruzeiro do Sul não lhe pediu permissão e usou a praia para parir seus filhos. Ele então chamou uma das suas serviçais, a dona Serpente Gigante, e ordenou:

– Não admito que ninguém dê à luz em meu oceano sem minha permissão. Vá e devore todos os bebês que encontrar na região sul da ilha.

A dona Serpente Gigante, obediente à ordem de seu amo, engoliu todos os bebês da deusa Cruzeiro do Sul com sua enorme bocarra, matando-os todos. Em seguida, cuspiu seus corpos.

As estrelinhas mortas flutuaram no mar até alcançarem uma praia chamada Higashi Misaki, no lado leste da ilha Taketomi. As estrelinhas, empurradas pelas ondas, pararam na praia e ficaram com o corpo salpicado de areia. Nessa localidade, havia um santuário onde vivia a semideusa Amável. Quando encontrou as estrelinhas sem vida, Amável sentiu muita pena delas e levou-as para o santuário.

- Oh! Pobres estrelinhas, vou colocá-las no incensório. Assim, quando os aldeões vierem me trazer oferendas durante o festival e queimarem os incensos, suas almas poderão subir ao céu junto à fumaça. Lá, na Alta Planície Celeste, poderão reencontrar sua mãe.

Conforme a semideusa Amável planejou, quando chegou o dia do festival, os aldeões queimaram muitos incensos e as almas dos bebês-estrelas subiram ao céu levadas pelas fumaças.

Esta é a origem lendária da estrela-do-mar. Em Taketomi-jima, apesar de séculos terem se passado, ainda hoje é possível encontrar estrelas-do-mar com corpos salpicados de areia nas belas praias que ficam ao sul da ilha de Okinawa. Elas são conhecidas como Hoshi-suna (estrelas de areias), nome que nasceu em referência a esta lenda

Os Ratos Sumotoris!


Os ratos sumotoris!

Texto e desenhos: Claudio Seto

Há muitos e muitos anos, no Japão, vivia um casal de velhinhos no sopé de uma montanha. Por serem pobres, raramente os velhinhos iam até a cidade fazer compras ou tomar banho em onsen (termas de água quente). O velhinho tinha uma pequena horta e cultivava verduras para o consumo do casal, e a velhinha cuidava dos afazeres domésticos.
Um dia, quando o velhinho se embrenhou na mata para apanhar lenhas, ouviu um ruído diferente entre as árvores. Espiou em silêncio detrás de uma árvore e viu dois ratos lutando sumô.
Foram várias rodadas, e o rato maior jogava sempre o rato menor para fora do ringue circular. Observando atentamente o rato menor, o velhinho reconheceu que era o ratinho que vivia em sua casa.
Assim que voltou para sua morada, o velhinho contou o que tinha assistido.
– Então são ratos sumotori (lutadores de sumô)? – perguntou a velhinha.
– Não, o rato grande e forte parece ser um choja nezumi (rato milionário), e o fracote é o rato que vive em nossa casa – respondeu o velhinho.
– Sinto-me culpada. O ratinho comendo migalhas de uma casa de pobre só pode ser fraco mesmo – observou a velhinha.
– Então vamos socar o que nos resta do arroz glutinoso (motigome) e fazer moti (bolinho de arroz) para ele ficar forte!
– Boa idéia!
Assim, lavaram o arroz glutinoso no primeiro dia do ano novo, cozinharam-no e colocaram-no para pilar. O velhinho batia com um pilão em forma de enorme martelo, enquanto a velhinha virava habilmente a massa de arroz socado para não grudar na cova do almofariz. Depois que a massa ficou bastante glutinosa, a velhinha foi tirando pedaços e girando na palma da mão. Fez vários bolinhos e os colocou numa bandeja comprida de madeira.
– Ratinho de casa, coma bastante moti e adquira força para derrotar o rato grandão – dizendo isso, o velhinho colocou a bandeja no cantinho da casa, perto de um buraco na parede.
Foi um verdadeiro banquete para o ratinho, que comeu a noite inteira e só parou para descansar para a luta.
Durante o dia, no meio da mata, as lutas desenrolaram-se da seguinte maneira:
No primeiro round, o rato grande empurrou o pequeno para fora do ringue circular.
No segundo, o rato pequeno jogou o grande para fora do ringue.
No terceiro round, o rato grande levantou o pequeno e o arremessou para fora do círculo.
No quarto round, o rato pequeno empurrou o grandão para fora do ringue. Assistindo à luta escondido, o velhinho sorriu satisfeito.
Com o empate no sumô, o rato milionário perguntou ao rato pequeno:
– Como foi que você adquiriu tanta força de um dia para outro?
– Ah, eu comi bastante moti, feitos carinhosamente por meu mestre e sua esposa – respondeu o pequeno.
– Eu gostaria de comer esses bolinhos de arroz na sua casa.
– Meu mestre é muito pobre, mas, se você trouxer dinheiro para ele comprar o arroz, acho que ele vai fazer para você também.
Quando o velho chegou em casa, a velha perguntou:
– Como foi a luta de sumô hoje?
– Ah, foi ótima, o nosso ratinho está tão forte quanto o grandão.
– Fico feliz! Foi bom ajudá-lo fazendo bolinhos de arroz.
– Bem, ouvi o ratão dizendo que gostaria de provar nosso moti.
– Só sobrou um pouquinho de arroz para comermos nesse ano novo, pois o que socamos ontem nós demos para o ratinho.
– Podemos ficar sem; vamos socar para os ratos.
Nessa noite, o rato grande veio visitar o rato pequeno trazendo um saco grande nas costas.
– Esses bolinhos de arroz glutinosos foram feitos pelo meu mestre e sua amável esposa. Por favor, sirva-se.
– Oh! Realmente são deliciosos. Eu nunca comi bolinhos tão gostosos. Dizem os japoneses que bolinhos feitos com carinho dão muita sorte para quem os come.
Os dois ratinhos comeram e comeram até ficarem com a barriga estufada, como os lutadores de sumô. A velhinha bondosa costurou uma tanga vermelha para cada um usar na luta.
Na manhã seguinte, quando o casal acordou, encontrou um saco cheio de dinheiro no armário. Os velhinhos tiveram um início de ano muito feliz fazendo compras na cidade e tomando banho diariamente nas termas de água quente.